"Estou tentando dar continuidade ao meu trabalho": esses franco-iranianos estão em campanha para as eleições municipais, com a mente por vezes preocupada com a guerra no Oriente Médio.
Uma semana antes do primeiro turno das eleições municipais, Marianne Desset está muito ocupada com a campanha: distribuindo panfletos, indo de porta em porta... Mas essa franco-iraniana está reservando um tempo para tentar ligar para sua mãe, que ainda mora no Irã, um país sob bombardeio desde o início dos ataques lançados por Israel e pelos Estados Unidos em 28 de fevereiro.
Marianne Desset, 16ª colocada na lista de Christophe Béchu (Horizons) em Angers, estabeleceu-se na França aos 35 anos, em 2020. Ela deixou o Irã por diversos motivos: vivia com um francês, seu relacionamento era monitorado pelas autoridades, seu negócio de turismo estava em dificuldades devido à pandemia, além das tensões sociais e políticas em seu país. E ela achava cada vez mais difícil viver sob um regime que reprimia todos os movimentos de protesto. Essa professora da Universidade Católica do Oeste aceitou integrar a lista do atual prefeito de Angers para as eleições municipais por seu interesse em questões cívicas. "Vindo de um país onde ainda não temos democracia, onde o povo iraniano é irrelevante em todos os debates políticos, ver que em Angers temos democracia participativa, onde as pessoas podem decidir em quais projetos o dinheiro público será gasto, é fascinante", explica Marianne Desset. Ela até adotou o nome Marianne na França quando obteve a cidadania no final de 2022: "Não há nada mais francês do que Marianne, ela é o símbolo da liberdade, foi uma escolha de nome muito simbólica." É também por amor à liberdade que Marianne Desset se candidata a prefeita: "A liberdade de consciência é uma grande liberdade que a França me deu, e trabalhar pela minha cidade é uma forma de retribuir à França." Mehrnoosh Sahranavard, segunda na lista de Nicolas Isnard, o prefeito cessante do LR de Salon-de-Provence, também enfatiza sua gratidão pela cidade para explicar sua candidatura nas eleições municipais. "Salon é minha cidade amada, meu segundo lar. Quando fui desenraizada, quando perdi tudo, ela me acolheu e me ajudou a reconstruir minha vida do zero", diz ela. Mehrnoosh Sahranavard não pôde retornar ao Irã após uma viagem à França em 2011 para um documentário que estava produzindo sobre o boticário francês Nostradamus. “Um artigo publicado no jornal Salon me mostrou sem véu, e esse artigo foi publicado em sites no Irã”, conta ela. “Não estou fazendo disso um tema de campanha.” Sua família ainda está no Irã, e ela tenta manter contato com eles apesar dos bloqueios de internet impostos pelas autoridades iranianas. “Estamos em uma situação única; estou preocupada e satisfeita ao mesmo tempo”, porque “há esperança de que isso leve à libertação do povo iraniano e ao fim deste regime”, afirma. Enquanto isso, Mehrnoosh Sahranavard “não quer misturar a história do Irã com a campanha” para as eleições municipais. “Tenho o apoio do prefeito, mas não estou fazendo disso um tema de campanha”, afirma. Marianne Desset compartilha desse sentimento, dizendo que “está tentando manter sua vida iraniana separada de sua vida francesa durante a campanha”. "Estou tentando continuar meu trabalho e garantir que meus compromissos não sejam afetados por isso: ainda estou indo de porta em porta, colando cartazes, distribuindo panfletos. Mas ainda é difícil; estou presente o máximo possível, mas parte dos meus pensamentos e da minha alma está em outro lugar", disse ela. O Crescente Vermelho Iraniano anunciou na terça-feira que mais de 780 pessoas foram mortas em todo o país desde o início dos ataques americanos e israelenses. Na quinta-feira, a agência de notícias oficial iraniana IRNA relatou 1.230 mortes desde sábado. "Estamos sob estresse há 45 anos." Arash Saeidi, o candidato apoiado pela LFI em Angers, também precisa fazer campanha apesar da guerra que afeta seu país de origem. Nascido no Irã, onde viveu os primeiros anos de sua vida antes de se estabelecer na França com seus pais, o eurodeputado acompanha ansiosamente os ataques que atingem o país. "Vi vídeos de nuvens de fumaça de explosões a 300 metros da casa da minha avó. Imagino minha avó sob nuvens de fumaça aos 90 anos", diz ele. Mas ele enfatiza, acima de tudo, que esse medo não é novidade para os iranianos. "Estamos acostumados; vivemos sob pressão há 45 anos. Quando o embargo causou o aumento da inflação, quando houve ondas de repressão a levantes populares desde os anos 2000...", explica o eurodeputado. "Infelizmente, a gente se acostuma. Sempre há momentos de maior tensão do que outros, mas tenho a impressão de que as pessoas só agora estão percebendo que os iranianos vêm sofrendo há 45 anos", lamenta. Os ataques israelenses e americanos aumentaram a ansiedade desse morador de Angers em relação ao futuro do Irã. "Não entendo meus concidadãos que estão comemorando e que pediam os bombardeios. Nunca vi uma democracia estabelecida por bombas", afirma Arash Saeidi. No entanto, o conflito no Oriente Médio não é um tema de sua campanha para as eleições municipais, já que ela se concentra principalmente em questões locais. "É algo distante para as pessoas. Os iranianos não são ucranianos aos olhos delas", denuncia Arash Saeidi. "Isso não tem impacto nenhum na campanha. O único impacto é no meu sono, mas existem remédios para isso", brincou ele.
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